"Nunca me senti à vontade dando conselhos. Sou adepto daquela velha e boa máxima de que se fosse muito bom, nego não estaria dando - venderia na alta. Mas, de uns tempos para cá, ando sendo bastante abordado por pessoas em fase vestibulanda que querem pegar dicas sobre a vida do jornalismo e tudo o que envolve essa profissão que abracei. Isso se deve a dois motivos básicos: me tornei professor do curso de Jornalismo (o que motiva as pessoas a questionarem as condições de tal faculdade em comparação com outras; dúvidas sobre a grade; coisas desse tipo) e trabalho na Rádio Interativa, que é direcionada ao público jovem (justamente na fase da vida que o cara tem que escolher onde ele irá labutar diariamente por longos anos futuros). Com isso, meu orkut, meu e-mail, meu celular, todas as formas de contato já inventadas e que tenho acesso vivem bombadas de gente perguntando sobre o curso.
Primeiramente, devo assumir sem o menor receio de dar um tiro errado que eu mandei bem ao escolher o Jornalismo. Me sinto muito confortável nessa profissão, mesmo com todas as reclamações quando pego meu contracheque. Então, qualquer coisa que eu diga sobre esse assunto irá naturalmente passar por esse crivo personalíssimo de minha satisfação e alegria com o que faço. Qualquer exagero, por favor, dê um desconto!
Minha formação intelectual durante a adolescência se deu com o punk rock. E também com o grunge, mesmo esse sendo nada mais que o bom e velho punk, com um pedal de distorção a mais na guitarra e um disco do Black Sabbath na cabeceira. Então o do it yourself é uma coisa bastante cara para mim. Acredito mesmo nessa premissa. E o Jornalismo é uma coisa muito faça você mesmo. Não boto fé alguma em jornalista que não carregue para cima e para baixo algo para ler. Que seja uma revista, que seja o último best-seller mequetrefe, que seja um clássico irrefutável da literatura mundial. Jornalista tem que ler. Tem que ler. Ler. E ler. Se não for assim, pode até ser jornalista, mas sempre será do time dos medíocres. Isso é a coisa mais do it yourself que o jornalista pode fazer: ganhar mais e mais embasamento para ele próprio formular sua concepções de mundo, polemizar mais, discutir mais, argumentar mais.
Não acredito em jornalista que fica pendurado na barra da saia do poder. Já dizia Millôr (um mestre!), que Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Estou com ele e não abro. Não existe essa balela da imparcialidade, neutralidade e bobagens afins. Jornalista tem lado. Sempre. E eu acho que o melhor lado é o do contra. Realmente nadar contra a corrente. Não acreditar na primeira versão de um fato. Isso ainda me fascina. E não tem nada a ver com fazer assessoria para o poder. Dá para fazer um baita serviço digno sendo assessor comissionado de algum governante. Agora, quando se muda o partido do poder e não se muda o jornalista da assessoria, começo a ficar com a pulga atrás da orelha...
Por fim, acho que a vida em redações é de muito estresse e pesado trabalho, sendo que a grana recebida no final do mês não é compatível com a carga emocional que se suporta, finais de semana e feriados não aproveitados por conta do trabalho e tensões variadas. Contudo, ainda acho isso melhor do que outras possibilidades profissionais. Pode até ser coisa de maluco, mas eu estou feliz nessa que embarquei."
*Pablo Kossa
é jornalista e produtor cultural. (pablokossa@bol.com.br)
Extraído da versão on line do jornal Diário da Manhã, DM, em 21/03/09
Link: http://www.dm.com.br/materias/show/t/para_quem_quer_ser_jornalista
sábado, 21 de março de 2009
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Um comentário:
Pode até ser coisa de maluco, mas eu estou feliz nessa que embarquei. [2]
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